sábado, 19 de janeiro de 2013

Les Enfants du Pirée (1960)

Depois do sucesso marcante no ano anterior, Dalida chega à década de 1960 mais destacada do que nunca. Ao passo que a música popular começa a mudar diante da chegada do iê-iê-iê, a artista se adapta à nova realidade e começa a inseri-la em sua carreira. Ao mesmo tempo que o estilo vedete dos anos 50 ainda prevalecia, Dalida começava a gravar canções naquele novo estilo.

Desta forma, em 1960, Dalida lança seu primeiro EP do ano contendo a faixa-single T'aimer Follement, que já declaravam um pouco a mudança de estilo e anunciavam o que ainda estava por vir. Já no compacto seguinte, o título de destaque era L'arlequin de Tolède, que remete os fãs a Dalida do início da carreira, mais exótica e cigana. A música que ficou conhecida no Brasil pela versão cantada por Ângela Maria, O Arlequim de Toledo.


O próximo single, que apareceu no EP seguinte, chegou ao público na mesma fórmula que Ciao Ciao Bambina, Come Prima e Bambino. Les Enfants du Pirée se tornou um hit inconfundível e marcou a carreira de Dalida naquele ano, sendo regravada pela cantora nos idiomas italiano, espanhol, alemão e inglês. A música foi retirada do filme grego Jamais le Dimanche (Nunca aos Domingos) e se tornaria, mais adiante, uma canção tradicional daquele país. Como consequência, a gravação tornaria Dalida bastante popular nele. A referida canção se tornou a faixa-título do LP lançado em 1960, contendo todos os singles de compactos daquele ano. 

Dalida interpreta Les Enfants du Pirée na TV francesa

Dalida em 1960

Outros 45 rotações daquele ano fizeram bastante sucesso, como a versão francesa de Romantica e o famoso hit rock Itsi Bitsi Petit Bikini - Biquíni de Bolinha Amarelinha. As canções integraram o LP juntamente com a tradução para o francês de Tintarella di Luna, Le Petit Clair de Lune - que, no Brasil, era a música Banho de Lua, de Cely Campelo - e Dans les Rues de Bahia, uma canção com ares tropicais que remetia ao calor e às festas brasileiras. O novo estilo acabava trocando as canções de amor por letras  com menos conteúdo, que serviam apenas para divertir. O álbum, por fim, ainda trazia mais uma versão de uma música do filme Jamais le Dimanche, Le Bonheur.


Para fechar o ano, Dalida lança mais dois compactos. Um apenas com músicas natalinas e outro com um single potente Garde-moi la Dernière Danse, que já havia sido um sucesso nos Estados Unidos e na Inglaterra como Save the Last Dance for Me. No EP de Natal, Dalida canta também versões francesas de clássicos, como Douce Nuit, Sainte Nuit (Silent Night/Noite Feliz), Vive le Vent (Jingle Bells) e Noël Blanc (The White Christmas).


Ao todo, de sete compactos, quatro foram classificados como disco de ouro: T'aimer Follement, Les Enfants du Pirée, Itsi Bitsi Petit Bikini e Romantica. Garde-Moi la Dernière Danse só emplacaria o mesmo sucesso no ano seguinte e acabaria se tornando título de um LP lançado no início de 1961 (Para ler mais sobre a premiação da música, consultar a postagem Le Petit Gonzales). A consagração dos citados hits indica claramente a mudança também do público, que passa a preferir as canções mais populares em detrimento das exóticas. Na construção de uma carreira de sucesso, os produtores de Dalida a incentivam a enveredar de vez pelo novo estilo. De 1960 a 1961, além da mudança de estilo musical, a cantora também implementa uma repaginada no visual. Em vez dos cabelos negros e soltos, mais castanhos e penteados em estilo coméia; quanto a vestimenta, em vez dos vestidos acinturados de vedete, usa roupas mais modernosas para a época, como calça comprida e blusas. Enquanto o sucesso cada vez mais se multiplica, Dalida e Lucien Morisse passam a estreitar as relações profissionais e se tornam muito mais do que bons amigos.

LP Les Enfants du Pirée

Garde-Moi la Dernière Danse representou o single iê-iê-iê 
que mais marcou a transição de Dalida ao novo estilo musical

Além dos discos de ouro, Dalida recebe em 1960 o Grande Prêmio da Canção Italiana, um dos prêmios mais importantes da música naquele país. Cada vez mais a artista se aproxima de sua terra natal e grava canções inteiramente em italiano. Em 1960, o 45 rotações Itsi Bitsi Petit Bikini traz a versão da Mademoiselle Juke-Box do clássico napolitano O Sole Mio. Enquanto isso, na Itália surgem EPs de Dalida com seus sucessos versionados para italiano, como L'arlechino Gitano (L'arlequin de Tolède), Pezzettini Bikini (Itsi Bitsi Petit Bikini) e T'amerò Dolcemente (T'aimer Follement). Outras canções foram gravadas por ela apenas naquele idioma, como Scoubidou e Milord, versão italiana do grande sucesso na voz de Edith Piaf.

Confira o volume 4 da coletânea Les Années Barclay, que reúne as músicas de 1960 e leva o título Les Enfants du Pirée:



1. T'aimer Follement (Makin' Love)
2. Va, Petite Étoile
3. Dans les Rues de Bahia (Too Much Tequila)
4. Romantica
5. De Grenade à Seville
6. Le Petit Clair de Lune (Tintarella di Luna)
7. L'arlequin de Tolède
8. Comme au Premier Jour
9. S'endormi Comme d'Habitude
10. Vieni Vieni Si
11. Les Enfants du Pirée (Ta Pedia tou Pirea)
12. C'est un Jour à Naples
13. Pilou Pilou Pilou He
14. Le Bonheur (Hassapico Nostalgique)
15. Itsi Bitsi Petit Bikini (Itsy Bitsy Teenie Weenie Yellow Polka Dot Bikini)
16. O Sole Mio
17. Bras Dessus, Bras Dessous (Why)
18. Ni Chaud, Ni Froid (Johnny Kissed a Girl)
19. Douce Nuit, Sainte Nuit (Silent Night)
20. Noël Blanc (The White Christmas)
21. Petit Papa Noël
22. Vive le Vent (Jingle Bells)
23. Garde-Moi la Dernière Danse (Save the Last Dance for Me)
24. La Joie d'Aimer (Unforgiven)
25. Ciao Ciao, Mon Amour
26. Les Marrons Chauds

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Ciao Ciao Bambina (1958-59)

No último ano da década de 1950, Dalida encontra finalmente a sua consagração. Já bem popularizada com grandes sucessos como Bambino, Come Prima e Gondolier, a cantora se iguala a artistas de grande calibre na França, como Edith Piaf, Charles Aznavour e Gilbert Bécaud. No último ano daquela década, ela apenas intensificou ainda mais o seu posto de vedete da música francesa, tornando-se ainda mais presente na cena musical. Nesse processo, a cantora vai se tornando menos exótica e caindo no gosto popular. Suas músicas já são de um estilo particular, mas sim representam o gosto do povo.

Em 1959, ela dá início ao ano com um novo compacto. O disco contém duas músicas no estilo bolero e que acabaram se tornando singles: La Chanson d'Orphée, uma reprise francesa de Manhã de Carnaval, de Vinícius de Morais, e Love in Portofino, uma adaptação ítalo-francesa de uma canção italiana, A San Cristina. Os dois títulos foram apreciados pelo público. Outra adaptação vinda da Itália naquela época foi Luna Caprese, que foi cantada por Dalida apenas em francês, embora tivesse sido conservado o título original em italiano. A música chegou ao mercado francês em um EP, que continha também o hit J'ai Rêvé. Ambas também foram singles, juntamente com Ne Joue Pas, uma outra música pop que pertence ao terceiro EP lançado em 1959. 

Dalida canta Love in Portofino em um festival de música na Suíça



O resultado final foi um mix dos três compactos que formaram o LP Love in Portofino, que chegou nas prateleiras das lojas de disco no mesmo ano. Como é possível observar, o disco é composto por grandes hits em quase sua totalidade. No entanto, os verdadeiros sucessos de Dalida daquele ano não se fizeram parte do mencionado álbum. Da mesma forma que Come Prima não figurou nenhum LP de carreira, outras canções de grande quilate também permaneceram de fora. É o caso Amstramgram, canção que dá nome a um 45 rotações que continha a música folclórica dos hebreus Hava Naguila versionada em francês e o hit Guitare et Tambourin. Dalida também fez sucesso de novo com outra canção de Domenico Modugno. Piove foi traduzida para francês em Ciao Ciao Bambina. A música causou uma repercussão bastante positiva e acabou se tornando uma das músicas mais lembradas de Dalida naquele ano. 


Dalida canta ao vivo seu hit Ciao Ciao Bambina


O resultado do reconhecimento premiou Dalida novamente com dois discos de ouro - por Ciao Ciao Bambina e Guitare e Tambourin - e com condecorações estrangeiras. Além de receber de novo o Oscar da Rádio Montecarlo, a cantora recebe, na Itália, os prêmios Oscar de Platina e Luva de Ouro, e, na Alemanha, o Leão de Ouro. Dalida, agora popularmente conhecida como Mademoiselle Juke-box, devido à popularidade constante de suas canções nas paradas de sucessos, com apenas três anos de carreira, lança seu primeiro disco de melhores sucessos, intitulado de Le Disque d'Or de Dalida. O álbum reúne, basicamente, as canções que ficaram de fora de LPs entre 1958 e 1959.

Enquanto isso, Dalida também realiza shows pela França e em países como Itália, Egito e Estados Unidos. Pouco a pouco, ela se tornava conhecida em toda a Europa. O sucesso certo fez com que ela chegasse, inclusive, a receber algumas propostas de produtores americanos para trabalhar nos Estados Unidos. No entanto, ela recusou, o que a levou a ser pouco divulgada naquele país. Em Paris, uma série de concertos no Olympia no mês de maio foi muito bem recebida com plateia lotada. O áudio do show foi lançado em formato CD em 1997.

Dalida ao vivo no Theatre de l'Étolie, em Paris, em 1959


Dalida em Munique, em 1959: grande sucesso da cantora na Alemanha
foi versão de Le Jour où la Pluie Viendra


Interpretação de Dalida para Am Tag Als der Regen Kam (Le Jour où la Pluie Viendra)

No volume 3 da coletânea Les Années Barclay, você confere todas as canções do final de 1958 e de todo o ano de 1959, exceto a música Pilou Pilou He, que foi inserida no Volume 4. A compilação de número  3 leva o nome da canção de maior destaque, Ciao Ciao Bambina.


1. Tu m'étais Destiné (You Are my Destiny)
2. Du Moment Qu'on S'aime (Piccolissima Serenata)
3. Si Je Pouvais Revivre un Jour de Ma Vie
4. Guitare et Tambourin
5. Amstramgram
6. Hava Naguila (Dansons, Mon Amour)
7. Des Millions de Larmes
8. Tout l'Amour (Passion Flower)
9. Ciao Ciao Bambina (Piove)
10. Ce Serait Dommage (Impatient Lover)
11. La Fille aux Pieds Nus
12. Love in Portofino (A San Cristina)
13. La Chanson d'Orphée (Manhã de Carnaval)
14. Je te Tendrais les Bras
15. Mes Frères (Manhattan Spiritual)
16. Marina
17. C'est ça L'amore (I Sing Amore)
18. Marie, Marie
19. Ne Joue Pas (What Good Does it Do Me?)
20. Adonis
21. J'ai Rêvé (Dream Lover)
22. Luna Caprese
23. Mélodie pour un Amour (Broken-Hearted Melody)
24. Mon Amour Oublié (Sag Warun)
25. Elle, Lui et l'autre (The Weeding Procession)


1. Guitare et Tambourin
2. Tu m'étais Destiné (You Are My Destiny)
3. Ce Serait Dommage (Impatient Lover)
4. Les Gitans
5. Histoire d'un Amour (Historia de un Amor)
6. Je Pars (Alone)
7. Hava Naguila (Dansons, Mon Amour)
8. Ciao Ciao Bambina (Piove)
9. Tout l'Amour (Passion Flower)
10. Come Prima (Tu me Donnes)

Gondolier / Come Prima (1957-58)

Na virada de 1957 para 1958, Dalida lança seu último EP. Novamente, a jovem que ainda debutava na cena musical faz um estrondoso sucesso, desta vez com o hit Gondolier. A canção é uma versão ítalo-francesa da inglesa With all My Heart, que fez sucesso nos Estados Unidos, com Jodie Sands, e na Inglaterra, com Petula Clark. O texto da canção, que narra o diálogo de uma jovem apaixonada com um gondoleiro italiano, é intercalado de um trecho em italiano com dois outros em francês. Na década de 1950, esse seria um hábito frequente nas canções de Dalida. Assim como Bambino, o disco bateu novo recorde e ganhou também disco de ouro.


No começo daquele ano, é lançado o LP que leva o nome da faixa principal, Gondolier. O disco reúne o novo EP de 1958 com os dois últimos lançados em 1957, que contêm os singles Lazzarelle e o sucesso Histoire d'un Amour. No LP, outras canções ganharam destaque como Buenas Noches, Mi Amor e o pré-pop-rock Le Jour où la Pluie Viendra. Esta última canção, sucesso composto por Gilbert Bécaud, fez êxito na voz de Dalida em sua versão em alemão, Am Tag als der Regen Kam, o que fez a cantora ganhar disco de ouro pela primeira vez fora da França, além de propagá-la na Alemanha. Depois de atingir sucesso cantando em francês, seus mentores começaram a fazê-la lançar versões de suas canções em outros idiomas. Lucien Morisse era seu principal produtor e fazia de tudo para tornar Dalida um sucesso ainda maior.

TV francesa exibe Dalida performatizando Gondolier

LP Les Gitans, lançado também em 1958

A prova desse êxito é que, em 1958, ainda seriam lançados mais 5 EPs. Entre as canções de maior destaque estavam Les Gitans, Je Pars, Aïe Mon Coeur e Dans le Bleu du Ciel Bleu - a versão francesa do grande sucesso de Domenico Modugno Volare, Nel Blu di Pinto di Blu - que se tornaram singles e renderam a Dalida discos de ouro mais uma vez. As canções foram reunidas mais uma vez e compuseram um outro disco, que ganha o nome de Les Gitans. A faixa-título encontra  grande sucesso, chegando a ser traduzida para italiano como Gli Zingari e interpretada por Dalida. As músicas deste álbum são extremamente pop, fazendo com que Dalida ficasse cada vez mais próxima do público e ganhando cada vez mais fãs.

Àquela época, Dalida era quase uma febre. Os discos Bambino e Gondolier, juntos, venderam mais de cinco milhões de exemplares. Dalida se torna a primeira artista francesas a possuir um fã clube próprio, o que representa um outro recorde. Em 1958, a cantora recebe dois prêmios importantíssimos: o Oscar da Rádio Montecarlo e o Bravos du Music Hall. Este último, ela recebeu juntamente ao ator e cantor já consagrado Yves Montand.






Dalida e Yves Montand recebem juntos o prêmio Bravos du Music Hall, em 1958


Como consequência da fama, Dalida ganha a oportunidade que tanto sonhou: atuar no cinema. Durante o tempo que registrava seus sucesso, ela ainda estrelou, pela primeira vez, em dois filmes, desta vez interpretando papéis principais: o primeiro deles foi ao lado de Eddie Barclay, em Brigade de Moeurs (Brigada dos Bons Costumes), onde ela aparece como Dalida mesmo. Já em Rapt au Deuxième Bureau (O Rapto do Décimo Segundo Escritório), ela interpreta Bella Morena, uma cantora de cabaré que reina em meio a uma trama de espionagem, na qual um cientista é capturado, sob proteção de um serviço secreto, para não ser capturado por mandantes de agentes chineses. No longa, Dalida canta duas músicas de seu então repertório: L'amour Chante e Inconnu Mon Amour.

Como Bella Morena, Dalida canta Inconnu Mon Amour em Rapt au Deuxième Bureau


Come Prima: grande sucesso de 1958, junto a Gondolier


No fim do ano, um último EP lançado revelou outros dois sucessos da cantora: Come Prima - gravada com texto ítalo-francês - e Tu m'étais Destiné - a versão francesa de You Are my Destiny, de Paul Anka. Apesar do bom número de vendas, as canções do compacto não entraram em nenhum LP. E assim, Dalida chega a 1959 com mais um disco de ouro e já praticamente consagrada como uma das artistas mais populares na França de todos os tempos, tendo em apenas três anos de carreira três grandes singles extremamente populares.

Enquanto isso, no Brasil, as canções de Dalida eram conhecidos por dois compactos. Um deles continham o single Bambino, e no outro Gondolier. Apenas em 1959 seria lançado o primeiro LP brasileiro da cantora.

A discografia dessa época é compilada pela Barclay, no volume 2 da coletânea Les Annéss Barclay, que ganha o nome da canção Come Prima.


1. Oh, La La (Chella 'lla)
2. Pour Garder
3. Tesoro Mio
4. Calypso Italiano
5. Histoire d'un Amour (Historia de un amor)
6. Gondolier (With all My Heart)
7. Le Jour où la Pluie Viendra
8. J´écoute Chanter la Brise (Sempre que Lisboa Canta)
9. Pardon (El reloj)
10. Dieu Seul (Love me for ever)
11. Les Yeux de Mon Amour (Cabo Frio)
12. Dans le Bleu du Ciel Bleu (Nel Blu di pinto di Blu)
13. La Montagne
14. Je Pars (Alone)
15. Timide Sérénade (Tímida Serenata)
16. Inconnu Mon Amour
17. L'amour Chante
18. Mélodie Perdue
19. Les Gitans
20. Marchand de Fruits
21. Rendez-Vous ao Lavandou
22. Aïe, Mon Coeur (La Portuguesa)
23. Adieu, Monsieur Mon Amour
24. Maintenant
25. Hélèna
26. Come Prima (Tu me Donnes) 

Bambino (1956-57)


Quando resolveu participou do concurso de talentos “Os Número 1 de Amanhã”, promovido por Bruno Coquatrix, Iolanda jamais imaginou que despontaria tão facilmente na cena musical francesa. Após ganhar a simpatia do dono do Teatro Olympia, em 1956, que a convidou para fazer o teste, a cantora foi apresentada a Eddie Barclay e a Lucien Morisse. Juntos, os três se encarregaram logo de produzir aquela nova cantora que seria lançada em breve no mercado musical.

É aí que Iolanda tem mais uma surpresa. Decepcionada à primeira vista por não ter obtido sucesso no cinema, a jovem se conformara em entrar na carreira de cantora. Contudo, não sabia ela que, ao se transformar em Dalida, interpretaria um papel por toda a sua vida.  Iolanda já era por si só uma figura exótica, por ter nascido no Egito e ter ascendência italiana. Diante disso, o trio Coquatrix, Barclay e Morisse imaginou para a moça a figura imaginária de uma cigana, que, ao mesmo tempo que não pertence a um lugar fixo, congrega todos elementos dos locais por que passou. Além disso, por possuir uma beleza tipicamente latina, o repertório de versões francesas de canções populares de países como Itália, Espanha e Portugal, como boleros e fados, pareciam cair como uma luva à cantora. O sotaque italiano, língua materna de Dalida, entoando as músicas em francês, fecharia com chave de ouro a personagem.


Assim, em 28 de agosto de 1956, saia o primeiro EP de Dalida, intitulado pela faixa Madona, uma adaptação francesa do título português Barco Negro, de Amália Rodrigues. Após um sucesso tímido do 45 rotações e de seu sucessor, o disco La Violetera, lançado em outubro de 1956, Lucien Morisse encontra o título ideal para Dalida: Bambino, a reprise francesa de uma canção de Marino Marini, Guaglione, que anteriormente deveria ter sido gravada pela vedete Gloria Lasso. Morisse faz Dalida gravá-la e passa a veicular a música muitas vezes na rádio Europe 1. Assim, Bambino vende meio milhão de unidades, ficando mais de um ano no hit parade da rádio e conquistando o primeiro disco de ouro de uma artista mulher. O sucesso instantâneo faz com que, algumas semanas depois, ela dividisse o palco do Olympia junto a Gilbert Bécaud, abrindo a primeira parte de um espetáculo de Charles Aznavour.


Dalida interpreta Bambino, entre 1956 e 57


Dalida entre 1956 e 57: visual latino e exótico ajudou a compor o estilo vedete da cantora


Os três primeiros compactos de Dalida são bastante homogêneos, tendo todos o mesmo plano de fundo. Canções de origem portuguesa e espanhola, remetendo-a diretamente ao personagem cigano e boêmio delineado para ela, a exemplo das músicas Fado, Gitane e Flamenco Bleu. Outros títulos, como Bambino e Por Favor, expressam literalmente a latinidade das canções, que, mesmo versionadas para o francês, mantém nos títulos expressões ou palavras de outras línguas. Este seria um costume marcante na carreira de Dalida, o qual ela manteria durante toda a vida artística, assim como o sotaque italianado, com os Rs bem enrolados. Em todas as músicas dessa época, Dalida canta sempre com uma empostação vocal diferenciada, que cai bem no seu timbre de voz marcante, classificado entre mezzo-soprano e contralto.

No início de 1957, sai o primeiro LP de Dalida, intitulado Son Nom est Dalida, que reúne as canções de seus três primeiros EPs. Naquele ano, a cantora deu prosseguimento ao trabalho do ano anterior, lançando novos compactos no mesmo estilo musical. Entre eles, se destacam os discos dos singles Le Ranch de Maria, Lazzarelle e Miguel. Esta última canção intitula o novo LP que sai naquele ano, também reunindo algumas das músicas dos compactos. No álbum Miguel, diferente de Son Nom est Dalida - no qual notadamente Bambino se sobressai às outras canções - figuram algumas canções de estilo mais pop, como La Plus Belle du Monde, Tu n'as Pas Très Bon Caractère e uma das mais conhecidas composições de Jacques Brel, Quand  On a que l'Amour. Isso revela que, pouco a pouco, Dalida sai de uma esfera exótica para uma popular, ainda que conserve as características anteriores. Ao todo, em 1957, são lançados quatro EPs e dois LPs. O último 45 rotações lançado naquele ano, que traz os singles Pour Garder e Histoire d’un Amour, já prevê o sucesso para o ano seguinte, que começa bem com um novo grande hit a altura de Bambino: Gondolier.

Os dois primeiros LPs de Dalida e todas as músicas lançadas entre 1956 e 1957, com exceção do último EP de 1957, foram compilados no primeiro volume da coletânea Les Années Barclay, que leva o nome da canção de maior sucesso da época, Bambino.  


1. Madona (Barco Negro)
2. Guitare Flamenco
3. Flamenco Bleu (Flamenco Love)
4. Mon Coeur Va
5. La Violetera (Violeterra)
6. Fado
7. Gitane
8. Le Torrent (Torrente)
9. Bambino (Guaglione)
10. Aime-moi
11. Eh Ben (Hey There)
12. Por Favor (Please)
13. Miguel
14. Ay! Mourir pour Toi
15. La Plus Belle du Monde (Più Bella Del Mondo)
16. Le Petit Chemin de Pièrres (Scalinatella)
17. Le Ranch de Maria (Casetta in Canada)
18. Tu Peux tout faire de Moi
19. Quand On a que l'Amour
20. Tu n'as pas Très Bon Caractère (Scapricciatello)
21. Lazzarelle (Lazzarella)
22. Buenas Noches, mi Amor
23. Scusami

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Primeiros anos: do Cairo a Paris


Yolanda Gigliotti nasceu em 17 de janeiro de 1933 em Choubra, no subúrbio do Cairo. Seus pais eram italianos, vindos da Serrastreta, na Calábria. Seu pai, Pietro Gigliotti (1904-1945) era o primeiro violinista na Ópera do Cairo, o que a levou a se interessar logo cedo por música e ppor obras operísticas. Sua mãe, Giuseppina Gigliotti, era costureira. Yolanda era a filha única entre dois garotos: Orlando, o mais velho, e Bruno, o mais jovem, nascido em 1936. No futuro, Bruno assumiria, como nome artístico, o nome do irmão mais velho e se tornaria o agente artístico de Dalida.

Com pouco menos de um ano de idade, Yolanda sofre uma infecção nos olhos que quase a cegou. Sob recomendações médicas, para curá-la, ela devia permanecer de quarentena com uma faixa cobrindo os olhos. Após 40 dias ela estava bem, mas, em consequência da doença, o incidente acabou resultando em um estrabismo convergente, que a obrigou a usar óculos durante 16 anos. Após esta idade, ela decide não mais usá-los, no intuito de se provar que já estava curada. Posteriormente, o estrabismo voltaria a se acentuar e seria amenizado através de diversas cirurgias as quais Dalida faria ao longo da vida.

Quando criança, a pequena Yolanda estudou em uma escola religiosa de Choubra, onde atuou em seus primeiros papéis no teatro. Com o estouro da 2ª Guerra Mundial, em 1939, seu pai, como todos os imigrantes italianos, foi preso e confinado no campo de Fayed. A ordem foi dada pelo rei do Egito, que lutava contra o facismo de Mussoline e queria investigar a vida dos italianos que viviam no País. A cada dois meses, Iolanda e sua família iam visitá-lo, o que nem sempre era possível. O resultado foi que ele retornou do campo em 1943, contudo, completamente abalado. Pietro passou a sentir enxaquecas frequentes e permanecia sempre amargurado, uma vez que teve sua carreira musical arruinada. A família tentava compreender o máximo a instabilidade psicológica dele, a fim de tentar ajudá-lo, mas a doença o levou a morte, dois anos depois.

Dalida e seu irmão mais novo, Bruno, que no futuro
 se tornaria seu produtor sob o pseudônimo de Orlando

Na adolescência, Dalida começou a trabalhar como costureira na casa de costura Donna, na qual acabou virando modelo. Então, ela decide participar de alguns concursos de beleza no Egito, a fim principalmente de se tornar atriz. Em 1954, aos 21 anos, ela ganha o título de Miss Egito e estrela alguns filmes de série B do cinema egípcio. O primeiro deles é uma participação no filme Un verre et une cigarette (Um copo e um cigarro). Depois disso ela, se encontrou com um diretor francês que lhe ofereceu um papel pequeno no filme Le masque de Toutankhamon (A máscara de Tutankhâmon). Diante das câmeras, Yolanda canta sem parar, despertando a atenção do diretor Marco de Gastyne. Fascinado com o timbre de sua voz, ele a aconselha a ir até Paris tentar uma oportunidade. Apesar da família não encorajá-la, Iolanda está decida a entrar na vida artística francesa. Em 24 de Dezembro de 1954, Yolanda – que agora assume o nome artístico de Dalila – desembarca em Paris.

No entanto, ao chegar à Cidade Luz, Dalila encontra muitas dificuldades. Ela peregrina pelos estúdios, mas sempre recebe negativas. Ao contrário do que pensava, seu currículo de Miss Egito com algumas poucas atuações em filmes parece não ter peso para o mercado cinematográfico francês.  O mesmo aconteceu por quase dois anos, o que deixou Iolanda bastante aborrecida e desesperançosa. Em 1956, Dalila decide tentar participar de audições em alguns cabarés-restaurantes de Paris, tais como o Villa d’Este e o Drap d’Or. Apesar de seu real sonho era o de ser atriz, ela resolve tentar uma chance na música. Ela então passa a cantar nos mencionados cabarés, apresentando um repertório exótico, composto por músicas latinas. Nas noites, Dalila passa a conhecer pessoas importantes, tais como Alfred Machard, um cenarista de filmes que pessoalmente lhe fala: “Porque você não troca o segundo L de seu nome por um D, como o de Deus Pai?”.

Certa noite, na plateia do Villa d’Este, estava Bruno Coquatrix, o diretor artístico e dono do Teatro Olympia. Junto à rádio Europe 1, Bruno organizava um concurso para revelar novos talentos, intitulado Os Número 1 de Amanhã. Por acaso ou por sorte, a então Dalida em cena chamou a atenção dele. Após o espetáculo, ele a procura nos bastidores e convida para participar do teste do concurso. Feliz com a oportunidade, Dalida, em 9 de abril de 1956, realiza seu teste com êxito, ganhando a simpatia de dois importantes homens: Eddie Barclay, produtor de discos, que acabara de trazer o disco de 45 rotações dos Estados Unidos à França, e Lucien Morisse, diretor de programas da rádio Europe 1. Este último, seduzido pelo charme oriental de Dalida, decide ele próprio comandar a carreira da cantora. Nos próximos meses, sua carreira engataria com três compactos, que se transformariam no primeiro LP de Dalida. O principal hit que a tornava conhecida em toda França e anunciava seu sucesso de toda uma vida era Bambino.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Coletâneas


A discografia de Dalida também pode ser conhecida às muitas coletâneas lançadas com seus registros musicais, compilados após a sua morte. Duas coletâneas em especial abrangem as músicas da cantora quase que totalmente, com exceção de poucas que ficaram de fora. Outras coletâneas compreende canções cantadas em italiano, em inglês, em espanhol e em alemão. Para conhecer as obras, consulte os links abaixo. Para fazer downloads, basta clicar no nome do disco no final de cada postagem.


• Les Années Barclay (1956-1970):










Volume 1: Bambino (1956-57)












Volume 2: Come Prima (1957-58)












Volume 3: Ciao Ciao Bambina (1958-59)











Volume 4: Les Enfants du Pirée (1960)













Volume 5: Le Petit Gonzales (1961-62)












Volume 6: Le Jour le Plus Long (1962-64)












Volume 7: La Danse de Zorba (1964-65)












Volume 8: Ciao Amore Ciao (1966-67)











Volume 9: Le Temps des Fleurs (1967-69)












Volume 10: L'an 2005 (1969-70)










Dalida - Les Années Barclay L'essentiel
(O melhor entre 1956-1970)






• Les Années Orlando (1970-1987):









Volume 1: La Rose qui J'aimais (1970-71)











Volume 2: Une vie (1971-72)











Volume 3: Des Gens qu'on Aimerait Connaître (1973-74)












Volume 4: J'attendrai (1974-75)












Volume 5: Besame Mucho (1976-77)











Volume 6: Salma Ya Salama (1977-79)












Volume 7: Laissez-moi Danser (1979-80)












Volume 8: Fini la Comédie (1980-82)












Volume 9: Mourir Sur Scène (1982-83)












Volume 10: Pour Te Dire Je T'aime (1984-1986)












Volume 11: Pour en Arriver Là (1984-1987)












Volume 12: Escales Autour du Monde
(Seleção de músicas cantadas em diversos idiomas entre 1970-87)









Dalida - Les Années Orlando
(O melhor entre os anos 1970-87)





• Italia Mia:




























Volume 3: Quelli Erano Giorni








Volume 4: Amare Per Vivere




Volume 5: La Strada dei Sogni








Volume 6: Col Tempo









Volume 7: Per Sempre Dalida





• Outros títulos:









Dalida - Deutsch Gesang Ihre Grossen Erfolge
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