sábado, 8 de junho de 2013

Besame Mucho (1976-77)

A pós o estrondoso sucesso de J'attendrai, Dalida segue desenvolvendo mais projetos em cima da disco music, sobretudo repaginando antigas canções de sucesso com roupagens mais modernas. O resultado foi um álbum lançado em 1976, Coup de Chapeau au Passé. O disco, como o próprio título sugere, dá um verdadeiro golpe do chapéu no passado, apresentando versões diferenciadas para composições de Charles Trenet, Edith Piaf, Rina Ketty, Jacques Prévert e Carmem Miranda. 

O primeiro single trabalhado no álbum foi Besame Mucho, canção que mais se destacou depois de J'attendrai, que também estava inclusa no LP. Versão foi muito bem recebida pelo público e ganhou disco de ouro em vendas; em programas de TV, Dalida sempre aparecia usando  vestidos exuberantes, dançando e cantando a faixa - pouco a pouco, o seu lado diva ia sendo cada vez mais trabalhado e posto à mostra. Futuramente, Dalida seria conhecida por seu visual sempre elegante, além de seu talento em cena.


Dalida interpreta e dança seu novo sucesso, Besame Mucho

Besame Mucho apesar de manter o título original em espanhol, trazia sua letra toda em francês, assim como a grande maioria dos hits da cantora. No b-side do single, estava a música Parle-moi d'amour, Mon Amour, versão do título italiano Parlami d'amore, Mariù, lançada em 1932 no filme Gli Uomini, que Mascalzoni (Os Homens, que patifes). O segundo e último single trabalhado do disco foi Le Petit Bonheur, uma composição do canadense Félix Leclerc, lançada em 1948. A canção foi reprisada por Dalida com êxito, embora fugisse um pouco da temática disco. O single trouxe Tu m'as Declaré L'amour com b-side, adaptação da italiana Verde Luna. Esta última, no entanto, ficou de fora de Coup de Chapeau au Passé, e só seria usada posteriormente no disco Salma Ya Salama, de 1977.

Coup de Chapeau au Passé: grandes sucessos dos anos 30, 40 e 50 repaginados

O disco de 1976 foi editado de forma muito bem pensada; de um lado do disco, apenas canções mais agitadas, enquanto do outro estavam as músicas lentas e baladas. Apesar de ter tido apenas duas músicas de trabalho, o álbum se destacou com outras faixas: Les Feuilles Mortes, La Mer, Tico Tico (no Fubá) e uma nova versão para La Vie en Rose (a primeira feita por Dalida é datada de 1965). A única música que não foi retrabalhada para o disco foi Que Reste-t-il de Nos Amours?, cuja versão do disco é a mesma editada no disco Il Faut du Temps, de 1972. O álbum foi editado no Brasil no ano seguinte e obteve certo êxito. Esse foi o primeiro álbum de Dalida lançado na década de 1970; desde Le Temps de Fleurs, nosso país só tinha acesso às principais músicas da artista por meio de compactos. Isso demonstrava que Dalida vinha se tornando cada vez mais popular, ainda mais do que nos anos 1960.


Dalida e sua versão "exótica" de Tico Tico no Fubá, com 
direito a vestimentas de Carmem Miranda


Em 1977, Dalida começa o ano com um novo trabalho: o disco Amoureuse de la Vie/Femme est la Nuit. O álbum é bastante especial, pois comemora os 20 anos de carreira de Dali. Em comemoração da data, renomados compositores a presenteiam com canções especiais para o álbum. Pascal Auriat e Pascal Sevran, dupla de charás que compôs o sucesso Il Venait d'avoir 18 Ans, oferecem a Dalida, respectivamente, as peças Comme Si Tu Revenais d'un Long Voyage e Il y a Toujours une Chanson. Essa última música mostra um panorama da vida de Dalida até atingir a fama, falando sobre etapas de sua juventude, com inserções de temas musicais que a levaram pelo sucesso, como Bambino, J'attendrai, La Vie en Rose e Ah, Le Petit Vin Blanc

Em continuação, Dalida ainda recebe as melancólicas baladas Tables Separées e Comme Si Tu Étais Là de Alice Dona. Para a cantora, Roger Hanin compõe Et Tous ces Regards, uma canção extensa que é intercalada com trechos de poemas de renomados escritores. Por fim, o disco apresenta duas composições dos italianos Toto Cutugno e Vito Pallavicini - Femme est la Nuit e Le Clefs de L'amour, sendo esta a letra desta última escrita pela própria Dalida. O último presente recebido pela cantora foi a outra faixa-título, Amoureuse de la Vie. Escrita pelo cantor Gilbert Bécaud, música narra a superação de Dalida das turbulências por que passou e seu estabelecimento como uma cantora popular, querida pelo público, e satisfeita com a vida pessoal e profissional. Tudo porque, na verdade, a data era duplamente simbólica: em 1977, além dos 20 anos de carreira, haviam se passado 10 anos desde que a cantora havia tentado o suicídio e quase encontrado a morte. O episódio, inclusive, é citado na letra da canção.

Femme est la Nuit: em 1977, Dalida segue investindo em sucessos disco como carro-chefe


Amoureuse de la Vie: Dalida canta sua superação de vida ao vivo em Praga


Apesar de tantos sucessos reunidos, o disco, assim como o anterior, só teve duas músicas de trabalho: as faixas-título, que foram editadas em um mesmo compacto, e Captain Sky, versão francesa de Dalida para uma canção americana. Na verdade, a grande sacada do álbum foi a comemoração dos 20 anos de carreira de Dalida, que foi celebrado mais com shows. Mal o LP chegou as lojas, Dalida tratou de preparar um espetáculo no Olympia. No repertório, os novos sucessos, mais hits recém  consagrados como Il Venait d'avoir 18 Ans, Gigi L'amoroso, Je Suis Malade e J'attendrai. No mais, uma surpresa para o público e fãs da cantora: um pot-pourri com grandes sucessos do começo da carreira de Dalida, como Come Prima, Gondolier, Les Enfants du Pirée e Bambino. Onze faixas do show foram editadas em um LP, lançado no ano seguinte, sobre o título do próprio espetáculo, Olympia 77. Outros shows comemorativos aconteceram não só na França, mas em vários locais da Europa. Um show especial foi realizado em Praga, na República Tcheca, que recentemente virou DVD.


Dalida, como de costume, veste branco em show no teatro Olympia, em 1977

Les Clefs de L'amour: Dalida ataca de compositora na produção de novo hit


O sucesso no biênio 1976/77 resultou em muitas homenagens a Dalida. A cantora ganhou nessa época a medalha Carnaval de Verão, o prêmio da Academia dos Discos - por estar em primeiro lugar nos hit parades de nove países -, além de ter sido eleita a mulher do ano no Canadá, ficando inclusive na frente da primeira dama americana, Jaqueline Kennedy. Ainda em 1977 mais prêmios esperam por Dalida, ganhos após o lançamento de mais um LP, o Salma Ya Salama. Mas esse só será abordado na próxima postagem.

Todos esses sucessos acima citados foram reunidos na coletânea Les Années Orlando, mais especificamente no volume 5, intitulado Besame Mucho. Ao todo, são oito canções do Coup de Chapeau au Passé (as demais estão no volume 4), três do álbum Femme est la Nuit/Amoureuse de la Vie e cinco do LP Salma Ya Salama. As demais canções dos dois últimos álbuns citados vêm inclusas no CD 6 da referida coletânea. Nessa postagem também é possível conferir o disco do Olympia 77, com todas as 12 faixas originais, lançadas tanto em LP quanto em CD, além de Gigi L'amoroso, faixa extra lançada apenas em uma coletânea especial de lives de Dalida.


Besame Mucho
1. Besame Mucho (Embrasse-moi)
2. La Mer
3. Maman
4. Les Feuilles Mortes
5. Histoire d'Aimer (Mister Love)
6. Tu m'as Declaré L'amour (Verde Luna)
7. Notre Façon de Vivre
8. Amor, Amor (Amour c'est Tout Dire)
9. La Vie en Rose
10. Parle-moi d'amour, Mon Amour (Parlami d'Amore, Mariù)
11. Captain Sky (OVNI)
12. Femme est la Nuit
13. Tico Tico (Tico Tico no Fubá)
14. Quando S'arrêtent les Violons
15. A Chaque Fois J'y Crois
16. Et Tous Ces Regards

Olympia 77
1. Il y a Toujours Une Chanson
2. Les Clefs de L'amour
3. Le Petit Bonheur
4. Tables Separées
5. Comme Si Tu Étais Là
6. Amoureuse de la Vie
7. Pot-pourri: Come Prima/Gondolier/Les Enfants du Pirée/Ciao Ciao Bambina/ Romantica / Garde-moi la Dernière Danse / Bambino / Les Gitans
8. Il Venait d'avoir 18 Ans
9. Je Suis Malade
10. J'attendrai
11. Femme est la Nuit
12. Et Tous Ces Regards
13. Gigi L'amoroso (Gigi L'amour) (Faixa bônus)

terça-feira, 4 de junho de 2013

J'attendrai (1974-75)

Devido ao grande sucesso de Gigi L'amoroso, Dalida logo passou a ser muito mais que uma cantora. Na França, passou a ser conhecida como comediènne, título usado para se referir a um artista multiplural, que interpreta, canta e dança. Ele foi efetivado definitivamente a Dali em 1975, quando a cantora implementa mais uma inovação em sua carreira. Naquele ano, ela lança o álbum J'attendrai. A faixa-título em especial foi um marco na vida profissional de Dalida, tornando-a a primeira artista disco da França. Mas até lá, muita coisa ainda estava pra acontecer.

A divulgação do álbum começou mais timidamente com a liberação do single Et de L'amour, de L'amour. A balada romântica é entoada em dueto de Dali com seu namorado, praticamente marido, o Conde de Saint Germain. A música, composta para ser uma espécie de segunda Paroles Paroles, fez um sucesso ameno, apesar de sua intensa divulgação, fazendo com que o casal fosse convidado a alguns programas de TV para cantá-la. A repercussão faz com que o single obtivesse disco de ouro em vendas. Curiosamente, o b-side do disco, Mon Petit Bonhomme, não teve tanta divulgação, mas obteve certo reconhecimento. O título também era uma tentativa de fazer com que Richard Chanfray adquirisse um real ofício; até então, ele vivia de números de ilusionismo, que o tornavam popular na alta sociedade francesa, mas não o reservava nenhum futuro promissor.

Et de L'amour, de L'amour: Dalida e Saint Germain em dueto


Em seguida, Dalida lança outro sucesso no estilo tragicomédia, Mein Lieber Herr. Canção conta a história de um senhor, cujo amor da juventude lhe foi tirado devido às circunstâncias da 2ª Guerra Mundial. O texto é todo em francês, embora apesar do título. A música também foi gravada inteiramente em alemão e, curiosamente, foi lançada 30 anos depois de terminada a guerra. A faixa foi apresentada em programas televisivos com êxito.


O último single do ano foi Ne Lui Dis Pas, balada romântica que ganhou versão em italiano, em Ciao Come Stai. Na virada para 1976, Dalida escolhe a faixa-título de seu último álbum para trabalhar. Na segunda metade dos anos 1970, o movimento disco music começa a tomar fôlego e explode em todo o mundo. Em países como Inglaterra e Estados Unidos, entre outros, surgiam muitos artistas do gênero, como Donna Summer, ABBA, Jackson 5, KC and the Sunshine Band, etc. Na França, Dalida foi a primeira cantora a aderir ao movimento, entoando a canção J'attendrai, de Rina Ketty, lançada originalmente em 1938. Dali repaginou a canção em versão discoteca, alcançando grande êxito dentro e fora da França. O single rendeu à artista o prêmio Leão de Ouro, concedido pela Alemanha a primeira cantora disco francesa.

Dalida interpreta a balada Ne Lui Dis Pas

Mein Liebe Herr: em título, Dalida exercita, como em 
Gigi L'amoroso, um pouco do seu lado atriz

O álbum de carreira J'attendrai é composto por todas esses singles e outras três faixas inéditas - Raphaël, L'amour à la Une e C'est Mieux Comme Ça. Esta última trata-se de versão cantada do tema instrumental do filme O Poderoso Chefão 2, composto por Ennio Moriconi. Dalida decide gravar a faixa diante do sucesso obtido na gravação de Parle Plus Bas, referente à trilha sonora do primeiro filme da série. Obviamente, o sucesso alcançado não foi o mesmo. O disco também apresentou reedições de canções de sucesso de outros álbums de Dalida - foram elas Gigi L'amoroso, Il Venait d'avoir 18 Ans e Ta Femme.

J'attendrai foi de fato o maior sucesso de Dalida nos anos 1970. A canção, que se tornou emblemática no início da 2ª Guerra Mundial, foi modernizada e mais uma vez foi agraciada com o reconhecimento do público. No filme sobre a vida da cantora, é possível ver a relação que Dali tinha com a guerra, visto que seu pai lutou nela; devido à ela, ele teve sua carreira de violinista interrompida e, mesmo tendo sobrevivendo aos combates, voltou em depressão profunda e nunca mais retomou o prumo. Por isso, esse disco, como a maioria dos lançados por Dalida nos anos 1970, é bem autobiográfico, tendo uma enorme carga emotiva vinda da vida pessoal da cantora. O sucesso fez com que o single obtivesse certificação de disco de ouro na França e no Canadá.

Capa do LP J'attendrai


Dalida canta um de seus grandes sucessos, o maior dos anos 1970: J'attendrai


O sucesso da reprise de uma canção antiga foi tão certeiro que Dalida resolveu investir no segmento. Em 1976, ela lança o disco Coup de Chapeau au Passé, título que reúne exclusivamente sucessos dos anos 30, 40 e 50 em versões modernizadas. O álbum fez sucesso no mundo todo. Antes de ingressar no novo trabalho, Dalida fecha 1975 com mais um álbum de canções italianas. Sempre Più, assim como Dalida Sings in italian for You, traz essencialmente versões de sucessos francesas da cantora versionados para seu idioma de nascença. Destaques para a versão italiana de Gigi L'amoroso e as inéditas Tua Moglie (Ta Femme), 18 Anni (Il Venait d'avoir 18 Ans), Giustina (Justine) e Tornerai (J'attendrai).

Estável no amor e na carreira, com uma vida mais bem estruturada, Dalida segue uma vida mais tranquila e sem muitas fortes emoções ou grandes dramas. Em especial, um episódio em 1974 fez a cantora ficar novamente cara a cara com a morte. Depois de encarar o suicídio de Luigi Tenco, de Lucien Morisse e até o seu próprio, a cantora assiste, sem muito poder de persuasão, o amigo israelense Mike Brant, também cantor, se entregar a depressão, que o levou à morte. Dalida foi uma das grandes apoiadoras da carreira do rapaz, deixando-o cantar na primeira parte de seus shows do Olympia 71, contribuindo com o sucesso dele na França. Dali ajudava-o dando conselhos desde sua primeira tentativa de suicídio, em 1974. Contudo, em 1975 o cantor conseguiu tirar a própria vida com êxito.

As faixas inéditas do álbum J'attendrai estão presentes no quarto volume da coletânea Les Années Orlando, que leva o nome da mesma canção, a que fez mais sucesso na época. Nela, constam todas as faixas do álbum Manuel que não foram inclusas no volume 3 da coletânea - Seule Avec Moi, Ma Vie Je la Chante, Comme Tu Dois Avoir Froid, Justine, Nous Sommes Tous Mortes à Vingt Ans e La Consultation - e dois títulos do álbum de 1976, Coup de Chapeau au Passé: Le Petit Bonheur e a versão de Que Reste-t-il de Nos Amours? já editada anteriomente no disco Il Faut du Temps.



1. J'attendrai
2. Ne Lui Dis Pas
3. Ma Vie Je la Chante
4. Mein Liebe Herr
5. Seule Avec Moi
6. Le Petit Bonheur
7. C'est Mieux Comme Ça
8. Et de L'amor, de L'amour (Com Richard Chanfray)
9. Nous Sommes Tous Mortes à Vingt Ans
10. Mon Petit Bonhomme
11. Que Reste-t-il de Nos Amours?
12. La Consultation
13. Justine
14. Raphaël
15. Comme Tu Dois Avoir Froid
16. L'amour à la Une          

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Des Gens Qu'on Aimerait Connaître (1973-74)

E enfim, é chegado o ano de 1973. Depois de dois trabalhos muito bem sucedidos no ano anterior, Dalida chega aos 40 anos de idade mostrando que não está por baixo. De amor novo - Richard Chanfray, vulgo Conde de Saint Germain -, ela volta aos hit parades com a canção Paroles Paroles, entoada em duo recitado com o ator Alain Delon. Outras canções lhe renderam êxito na época, como a balada Pour ne Pas Vivre Seul e sua versão cantada de Parle Plus Bas, canção temática do filme O Poderoso Chefão. Os bons fruntos renderam versões das músicas em outros idiomas: Per non vivere soli (Pour ne Pas Vivre Seul) e Worte, nur Worte - Paroles Paroles em alemão, cantada junto ao ator/cantor Friedrich Schütter.



LP Il Faut du Temps reuniu grandes êxitos que engrandeceram a fama de Dalida

Dalida e Saint Germain: embora já estivessem se relacionando desde 1972, 
o casal apareceu publicamente com mais frequência em fins desta década


Após trabalhos profundos como Ils Ont Changé Ma Chanson, Ma, Une Vie e Il Faut du Temps, Dalida lança um disco que ficou marcado na sua história, destacado pelo capricho nos mínimos detalhes e pelas canções de sucesso compunham seu repertório. Em Julien, Dalida demonstra que, mesmo sutilmente, aderiu a um novo estilo. Em vez das canções melancólicas com ar bucólico e orquestração mais simples,  as músicas do álbum têm um ar mais sofisticado, mas também mais denso. O trabalho também simboliza uma junção entre teatro e canção; a cantora passa a incorporar personagens diferentes em cada canção: uma mulher que sofre desesperadamente por amor em Je Suis Malade - de Serge Lama -; na faixa-título, ela declara seu amor a um homem e pede para que ele não vá embora; uma aventura de uma mulher madura com um jovem adolescente em Il Venait d'Avoir 18 Ans; e o retorno a sua infância no Egito em Le Temps de Mon Père.

Mais Il y à l'Accordeon: primeiro single do álbum Julien


Enquanto ainda colhia os frutos do single Paroles Paroles - que também foi incluído no disco -, Dalida lança uma nova música de trabalho, Mais Il y à l'Accordéon, tendo no b-side a canção Rien Qu'un Homme de Plus. Em seguida, a canção Vado Via, original em italiano, gravada por Drupi; do outro lado do compacto, estava Je Suis Malade, grande hit de Serge Lama naquele ano, que também contribuiu positivamente para a carreira de Dalida; a interpretação dedicada dela fez a canção estar sempre constante no repertório da cantora e contribriu para que ela se tornasse a grande intérprete que se tornou. O disco recebeu certificação de disco de ouro na França.

O último single trabalhado no ano foi Julien, adaptação da canção italiana Elisa, Elisa, de Sergio Endrigo, apresentada no Festival de San Remo de 1973. No b-side, estava a música Non, Ce n'est Pas pour Moi, título bem elaborado mas que não obteve muito destaque na época de lançamento. Todas as canções acima citadas estavam incluídas outro presente dado a Dalida por Serge Lama - a pessimista canção Ô Seigneur Dieu - e a marcha Soleil d'un Nouveau Monde.

 
LP Julien, de 1973

Dalida canta Julien ao vivo na TV francesa

Je Suis Malade: título composto por Serge Lama tornou-se
emblemático, estando sempre presente no repertório de Dalida

Ainda em 1973, Dalida lançou um disco de canções italianas. Desde fins dos anos 1960, o registro de canções em seu idioma natal havia diminuído consideravelmente, estando restrito a versões de grandes sucessos da cantora em francês. Em entrevistas, Dalida afirmou que o fato se dava pelo fato de os italianos estarem desconectados com sua atual linha de produção musical. Ela chega a citar que é vista por seu compatriotas como uma cantora pessimista, que traz tristeza, preferindo trabalhos mais "felizes", como à época de Dan Dan Dan, em que a cantora era bastante aclamada na Itália. De fato, muita coisa mudara desde então. Suas participações em concursos como o Canzoníssima haviam praticamente sessado. Sua última ida ao programa havia sido em 1971, quando interpretou Ciao Amore Ciao. Contudo, para não perder o costume, em 1973 Dalida grava Dalida sings in italian for you, contado com novos títulos originais em italiano - Lei Lei, La Colpa è Tua e Credo nell'Amore - e adaptações de sucessos franceses - Priggionera (Comment Faire pour Oublier), Non è più la Mia Canzone (Ils Ont Changé ma Chanson, Ma) e  Cammina Cammina (Mamina).

Mal começava 1974 e Dalida já estava lançando seu primeiro single de trabalho do ano- tratava-se da música Gigi L'amoroso. O título havia sido encomendado especialmente nos moldes do novo estilo de Dalida, que mesclava interpretação e música. A canção também foi feita para ser o fechamento dos espetáculos da cantora; desde 1967, Ciao Amore Ciao era o sucesso utilizado para o encerramento de shows. A título de modernizar o repertório live de Dali, Gigi L'amoroso foi criada. Na época, houve bastante indecisão na hora de lançar o single: ao ver de Orlando, produtor e irmão da cantora, a música não deveria ser lançada, pois nunca poderia ser executada nas rádios, visto que tinha mais de sete minutos de duração. A escolha do b-side também foi complicada. Quando foi apresentada a Il Venait d'avor 18 Ans, Dalida se apaixonou instantaneamente pelo título, mas foi advertida que não tinha a ver com seu estilo. A cantora fez questão e acabou registrando-a. Por fim, ela ainda fez questão de lançá-la; sua produção então tratou de ressuscitá-la do disco Julien e colocá-la como b-side do mais recente single.

Gigi L'amoroso: grande sucesso de Dalida em 1974

Il Venait d'avoir 18 Ans: balada fez sucesso mundo à fora

O resultado foi um estrondoso sucesso que rendeu a Dalida três milhões de discos vendidos em todo o mundo, batendo o recorde de venda de discos que até então era reservado a Frank Sinatra, com o single Strangers in the Night, de 1966. Muitos prêmios vieram no biênio 1973/74 diante desse êxito: Medalha de ouro APPCB, dada pela Associção Profissional de Imprensa Cinematográfica Belga; Prêmio Triunfo de 1973, na França; o Gigi de Ouro - feito especialmente para Dali - e o Coração de Ouro, em mérito por ser a cantora mais popular na Espanha. 


Para comemorar tanto sucesso, em janeiro de 1974 começa uma turnê no Olympia. O espetáculo trazia seus novos sucessos  (Julien, Gigi, Il Venait d'avoir 18 Ans, Ô Seigneu Dieu, Paroles Paroles...), releituras de antigas canções - La Danse de Zorba, Que sont Devenues les Fleurs? e Entrez Sans Frapper -, escolhidas para familiarizar o público ao novo repertório, e algumas canções inéditas, que seriam lançadas naquele mesmo ano, no álbum Manuel: Nous Sommes Tous Mortes à Vingt Ans e Comme tu Dois Avoir Froid. O show foi bastante aclamado pela crítica e, no mesmo ano, foi lançado em LP. O repertório ficou restrito a apenas 11 músicas. Na década de 2000, o álbum foi resmaterizado e reeditado em CD. Contudo, o setlist continuou o mesmo. Canções como Paroles Paroles, ficaram de fora. Um forte motivo para justificar a não inclusão desse grande sucesso foi porque ele foi interpretado, na época do show ,com ajuda de outros artistas, como Patrick Juvet, Dave e Hervé Vilard, uma vez que Alain Delon estava com outras demandas de trabalho e não pode participar do espetáculo de Dalida.  


Dalida em cena na turnê Olympia 74

Depois da euforia da turnê no teatro Olympia, Dalida inicou a gravação de mais um disco de carreira. Meses depois chegava ao público Manuel, um álbum feito nos mesmos moldes de seu antecessor: alguma canções melancólicas e outras mais agitadas. Os grandes hits do LP foram Gigi L'amoroso, Ta Femme e a faixa-título. Apesar dos novos sucessos, os bons frutos do single Gigi L'amoroso/Il Venait d'avoir 18 Ans continuaram ecoando pelos anos seguintes. Em 1975, Dali recebe o Oscar Mundial do Sucesso pela permanência das duas músicas em 1º lugar em 12 países. Além disso, o sucesso fatura disco de ouro na Alemanha, disco de platina na Bélgica, Holanda e Luxemburgo e oito estatuetas em premiação musical no Olympia. Na França, o sucesso foi avassalador: 5 discos de ouro para Gigi L'amoroso e 6 para Il Venait d'Avoir 18 Ans.


LP Manuel



Novos singles de Dalida em 1974




 Em Ta Femme, Dalida canta as dores de ser a outra


Manuel: Dalida canta o texto de uma mulher feliz com
a saída do marido da prisão


O terceiro volume da coletânea Les Années Orlando, Des Gens Qu'on Aimerait Connaître traz todos sucessos do disco Julien (com exceção de Le Temps de Mon Père e Paroles Paroles), três faixas do LP Manuel - Anima Mia, Ta Femme e a faixa-título -, além da canção Et Puis C'est Toi, pertencente do álbum Il Faut du Temps, mas que ficou de fora da coletânea anterior. Nesta postagem, é possível conferir também o álbum Olympia 74.


1. Il Venait d'avoir 18 Ans
2. Anima Mia
3. Julien (Elisa, Elisa)
4. Non, Ce n'est pas pour Moi
5. Mais Il y à l'accordeon
6. Je Suis Malade
7. Vado Via (Je m'en Vais)
8. Manuel
9. Ta Femme
10. Des Gens qu'on Aimerait Connaître
11. Et Puis C'est Toi
12. Soleil d'un Nouveau Monde
13. Rien qu'un Homme de Plus
14. Ô Seigneur Dieu (Pourquoi m'as-tu Abandonnée?)
15. Gigi L'amoroso (Gigi L'amour)


1. Introdution - Ainsi Parlait Zarasthoustra
2. Entrez Sans Frapper
3. Pour ne pas Vivre Seul
4. Nous Sommes Tous Mortes à Vingt Ans
5. Avec le Temps
6. Que Sont Devenues les Fleurs? (Where Have All the Flowers Gone?)
7. Ô Seigneur Dieu (Pourquoi m'as-tu Abandonné?)
8. Il Venait d'avoir 18 ans
9. Je Suis Malade
10. Julien (Elisa, Elisa)
11. Gigi L'amoroso (Gigi L'amour)

domingo, 28 de abril de 2013

Une Vie (1971-72)


A mesma linha de trabalho escolhida por Dalida avança para 1971 e culmina em um novo trabalho bastante denso e maduro. Também produzido pela Orlando International Shows, o disco Une Vie atinge grande sucesso, uma vez que é formado por composições memoráveis de grandes artistas franceses. Para produzir o álbum, a cantora reuniu peças de grandes compositores, como Michel Sardou - Chanter les Voix -, Michel Legrand - a faixa-título do disco -, Serge Lama - Toutes les Femmes du Monde -, Boris Bergman - Le Fermier - e Leo Ferré - Avec Le Temps, um dos maiores sucessos de Dalida de toda a sua carreira. A canção de tom pessimista, junto a outra composições mais românticas e tristonhas, aprofundou ainda mais a maturidade da estética musical, que culminou em um trabalho bem sério.

Avec le Temps: canção foi um dos hinos imortalizados por Dalida em 1971

Outros títulos favoreceram esse lado musical melancólico, como Comment Faire Pour Oublier, que foi o primeiro single lançado naquele ano. Trata-se de uma adaptação ao francês de outra composição de Melanie Sakfa, que havia composto a original de Ils Ont Changé Ma Chanson. No verso do compacto, uma canção que ficou e fora do LP mas que deu nome ao disco número 1 da coletânea Les Années Barclay, La Rose Qui J'Aimais. Já Jésus Bambino, segundo single, era uma adaptação francesa do título italiano de Lucio Dalla, 4 Marzo 1943. Originalmente, a canção apresentada no Festival de San Remo de 1971 foi nomeada tal como no francês, Gesù Bambino. No entanto, ela foi considerada desrespeitosa pelo júri, obrigando o compositor da peça mudar o título. No Brasil, a polêmica música foi versionada por Chico Buarque e lançada como Minha História. No b-side da versão de Dalida, constava outra versão do italiano para o francês: Tut'all Più, de Patty Pravo, foi versionada para Tout au Plus. Diferente do b-side do primeiro single, este sim saiu no LP Une Vie. 

Já o terceiro single foi Mamy Blue - originalmente composta em francês, foi lançado em italiano por Nicoletta e, posteriormente, por Dalida, que popularizou a canção na Itália. O single, que foi o único título em italiano que figurou no LP Une Vie, aproveitou para trazer à França, como b-side, um novo single lançado na Itália por Dalida, La Colpa è Tua. Em seu país materno, as duas músicas foram lançadas como singles em compactos independentes, que continham em seus versos, respectivamente, duas canções de Dalida adaptadas para italiano: L'amore Mio Per Te (Le Rose Qui J'Aimais) e Prigioniera (Comment Faire Pour Oublier). Em 1971, Mamy Blue foi a canção que mais se destacou em vendas, obtendo certificado de disco de ouro na Itália. Já na França, nenhum título do gênero foi obtido.

Para fechar os trabalhos daquele ano, Dalida lançou mais dois singles: Avec le Temps, um das canções mais emblemática de sua carreira, contendo no b-side Monsieur L'amour. O último foi a balada romântica Les Choses de L'amour, junto a Chanter les Voix. Fora as já citadas, foi agregado ao LP mais uma faixa: Non, versão francesa do título Why, de Roger Whittaker. Apesar do pouco sucesso de vendas, o trabalho demonstrava que Dalida já era uma artista consagrada e que já podia caminhar com atitude pelo estilo que quisesse. O resultado foi que a cantora continuava fazendo sucesso com seu novo repertório, chegando a executar uma série de concertos no Piccadily da cidade de Beirut, no Líbano, e em diversos países do leste europeu e ásia central. 

Capa do disco Une Vie traz escritos com a letra
da própria Dalida

Na Europa o sucesso ainda frutificava, sendo consagrado por um show no Olympia, em Paris. O dono do teatro, Bruno Coquatrix, ficou temeroso se o espetáculo vingaria, visto que Dalida não se apresentava na casa de espetáculos desde 1967 e seu repertório mudara bastante. No entanto, o engano foi certo e Dalida conseguiu lotar todos os dias de show. O setlist foi composto essencialmente por canções de seus dois últimos LPs, Ils Ont Changé Ma Chanson e Une Vie. Dalida acresceu aos shows apenas quatro canções da década de 1960: Deux Colombes, Les Anges Noirs, Heene Ma Tov e Ciao Amore Ciao, que fechava o espetáculo. Com exceção de Heene Ma Tov, Darla Dirladada e Ils Ont Changé Ma Chanson, canções folclóricas mais dançantes, todo o setlist do show era mais melancólico, demonstrando uma fase bastante intimista e reflexiva de Dalida. Uma noite do espetáculo foi gravada e o áudio foi compilado em um LP em 1972, intitulado Olympia 71. Esse foi o primeiro disco ao vivo lançado por Dalida em vida, que, a princípio, continha apenas 12 faixas. Contudo, ao ser relançado em CD nos anos 1990, o show teve todo o seu repertório reeditado, o que resultou em um total de 17 canções. Em 2012, o espetáculo foi lançado em DVD com áudio e imagens restaurados.

 
Dalida apresenta, ao vivo no show Olympia 71, a canção Mamy Blue,
com a qual conquistou disco de ouro na Itália

Após iniciar o ano de 1972 com o pé direito com o lançamento de seu primeiro disco ao vivo, Dalida lança um novo single - Mamina. A canção melancólica, mais uma para o hall dos títulos intimistas da cantora,  fala sobre a relação dela com a mãe. Esse tema é um dos preferidos de Dalida, sendo volta e meia tratado em várias canções. Ao mesmo tempo, a canção demonstrava que a cantora seguia em bom ritmo no seu novo estilo. Na sequência, um outro compacto foi lançado, trazendo mais duas novas músicas: eram Jésus Kitsch e Ma Mélo Mélodie. Esta última quebrava um pouco da linha de produção mais intimista de Dalida, uma vez que se mostrava uma música mais superficial, feita para divertir. Todas essas novas canções tornaram-se parte de um novo disco editado naquele ano. O trabalho foi intitulado de Il Faut du Temps, por causa da faixa de mesmo nome, que era a primeira do LP. 

O disco trouxe a mesma linha do disco Une Vie, embora trouxesse mais hits. O álbum trouxe novamente a faixa Avec le Temps; a balada Pour ne Pas Vivre Seul, que fez sucesso; Parle Plus Bas, uma vesão letrada do tema musical de Ennio Moricone, composto para o filme O Poderoso Chefão; uma releitura do sucesso de Charles Trenet Que Reste-t-il de Nos Amours?; e a romântica Paroles Paroles, cantado junto com o ator Alain Delon. Esta última faixa - que é uma reprise de Parole Parole, sucesso italiano cantado por Mina e Alberto Lupo - alcançou enorme êxito e colocou Dalida de volta às paradas de sucesso. A canção representou também o retorno da cantora à interpretação de músicas mais do gosto popular. Paroles Paroles é, até hoje, uma das canções gravadas por Dali mais lembradas pelo público. O hit foi número 1 no Japão, onde ganhou disco de ouro. Na França, o single ganhou disco de ouro duplo.


Paroles Paroles: Dalida voltou aos hit parades com sucesso do single

Capa do Single Paroles Paroles, lançado no início de 1973. 
B-side Pour ne Pas Vivre Seul também fez sucesso. 

Dalida interpreta Pour ne Pas Vivre Seul ao vivo na televisão francesa.
Título foi relembrado em 2002 no filme Oito Mulheres (Huit Femmes)

A relação de Dalida com Alain Delon, provocada pelo dueto, levou a uma série de encontro entre os dois artistas. O fato suscitou um possível relacionamento entre ambos. Nunca se comprovou se os dois chegaram a se relacionar afetivamente, pois sempre afirmaram em público que eram bons amigos. Na verdade, o biênio 1972/73 trouxe sorte para o amor na vida de Dalida de outra forma. Nessa época, ela conheceu Richard Chanfray, figura pública conhecida como o Conde de Saint Germain. O homem era conhecido por seus números de ilusionismo, com os quais dizia transformar chumbo em ouro. Em 1973, ele se destacou em programas de TV com números de magia que encantaram a sociedade francesa. Certo dia, os dois se conheceram e se apaixonaram rapidamente, engatando um relacionamento que foi o mais duradouro da vida de Dalida - durou nove anos. O relacionamento tornou-se decisivo na condução da carreira artística de cantora, que começou a "desentristecer" ao longo dos anos 1970.


Alain Delon e Dalida: amizade colorida?

Dalida recebe fãs em viagem de turnê ao Japão, em 1974

O volume dois da coletânea Les Années Barclay, também intitulado Une Vie, traz todas as canções do LP homônimo, mais as citadas acimas do Il Faut du Temps, incluindo a faixa-título e a canção L'amour qui Venait du Froid, versão francesa de uma canção popular russa, registrada na mesma época pelo cantor Patrick Juvet, sob o título de Sonia. As demais canções do álbum foram incluídas no outro volume da coletânea, que será apresentado na postagem seguinte: Des Gens qu'on Aimerait Connaître. A única exceção da coletânea é a faixa Le Temps de Mon Père, que é pertencente ao disco Julien, de 1973. A versãod e Dalida para Que Reste-t-il de nos Amours? foi relançada em 1976, no disco Coup du Chapeau au Passé; logo, a faixa foi editada no volume da coletânea que contempla o referido álbum.


1. Une Vie
2. Parle Plus Bas (Le Parrain)
3. Non (Why)
4. Les Choses de L'amour
5. Paroles Paroles (Parole Parole)
6. Il Faut du Temps
7. Mamina
8. Le Temps de Mon Père
9. Chanter les Voix
10. Monsieur L'amour
11. Jésus Kitsch
12. Pour ne Pas Vivre Seul
13. L'amour qui Venait du Froid
14. Toutes les Femmes du Monde
15. Le Fermier
16. Ma Mélo Mélodie


1. Introdution Orchestra - Non
2. Non (Why)
3. Chanter les Voix
4. Heene Ma Tov
5. Les Anges Noirs
6. Tout au Plus (Tut'all Più)
7. Les Choses de L'amour
8. Toutes les Femmes du Monde
9. Le Fermier
10. Darla Dirladada
11. Deux Colombes
12. Ils ont Changè ma Chanson, Ma
13. Une Vie
14. Avec le Temps
15. Mamy Blue
16. Ciao Amore Ciao

quinta-feira, 7 de março de 2013

La Rose qui J'Aimais (1970-71)

A partir do ano de 1970, Dalida dá um novo rumo à sua carreira. Inspirada pela filosofia oriental, a qual teve conhecimento através de Arnaud Desjardins - com quem teve um breve relacionamento amoroso, mas que terminou em 1971, uma vez que o rapaz era casado, e resultou em uma forte amizade - e em diversas viagens ao oriente, principalmente à Índia, a cantora passou a enxergar a vida de outro ponto de vista. Chegou inclusive a ponderar a por um fim em sua carreira, a qual era focada nos sucessos musicais da moda e nos trabalhos essencialmente comerciais, para gerar lucro à gravadora. Contudo, ela prossegue com a carreira artística, mas não sem antes promover grandes mudanças nela.

A primeira foi que Dalida decidiu romper definitivamente com a Barclay. A gravadora permitia atuação parcial da cantora, de forma que muitas músicas ela tinha que gravar apenas para satisfazer o gosto da empresa, que procurava sempre focar no resultado positivo das vendas. Essa postura fez com que até então Dalida fosse considerada praticamente como uma fábrica de vender discos. Além de ser bastante popular - em 1965, foi eleita a cantora preferida dos franceses -, fazê-la registrar hits chicletes iê-iê-iê era uma forma de fazer com que ela estivesse ditando aquela moda, que já durava quase uma década. O resultado é que no final dos anos 1960, mais precisamente entre 1967 e 1969, Dalida não sentia vontade de gravar algumas das canções que registrou. Naké-di, Naké-dou e Tipitipiti, lançadas em 1969, era canções detestadas por Dali, motivo pelo qual as canções não foram incluídas na coletânea Les Années Barclay - L'An 2005.

O fato é que Dalida sentia necessidade de se libertar daquele estilo e realizar uma produção que tivesse mais haver com ela, e que, principalmente, ela tivesse mais liberdade para inovar e gravar aquilo que quisesse. Por isso, no biênio 1969-1970, ela rompe com a Barclay e se junta ao seu irmão mais novo, Bruno Gigliotti, para fundarem uma sociedade. Bruno, que também se interessava por música e chegou a tentar carreira artística no início dos anos 1960, tornou-se o produtor musical e agente pessoal da irmã. Como nome artístico, ele assume o pseudônimo Orlando, que era o nome de seu irmão mais velho. Logo, por estar em família, Dalida teria praticamente uma gravadora própria, na qual poderia agir como bem entendesse. Um outro contrato foi firmado naquela época, com a Sonopress, que ficou responsável pela distribuição dos discos e compactos produzidos por Dalida e seu irmão.

Portanto, logo depois de lançar o EP Hey Love, Dalida lançou seu primeiro compacto na Orlando International Shows, nome da produtora lançada pelo irmão, agora conhecido por Orlando. O 45 rotações trazia quatro canções: Lady d'Arbanville, Pour Qui, Pourquoi, Si C'était à Refaire e Entre les Lignes, Entre les Mots. O EP, na verdade, foi o último lançado nesta modalidade. A partir de 1970, o estilo de lançamento em EP caía em desuso, dando mais destaque ao trabalho inteiro, que integrava o LP. Aos compactos restaram a incumbência de divulgarem os singles, canções promocionais que era mais trabalhadas pelos artistas. Hoje em dia, com o uso dos CDs, a moda ainda se mantém, principalmente nos Estados Unidos e Europa. Antes de lançarem o trabalho completo, os artistas lançam CDs com uma ou duas músicas que integrarão realmente o disco de carreira. O disco do single vem com capas diferenciadas e/ou conteúdos exclusivos - como remixes ou versões alternativas das faixas - e geralmente são lançados meses antes do trabalho completo.

Pois no início da década de 1970 começava a entrar em voga essa nova maneira de lançar produtos da indústria fonográfica. E Dalida ajudava a encabeçar essa nova tendência, que também definiria seu novo estilo musical. Em seu último EP, mencionado acima, a cantora apresentava um repertório mais contemporâneo e adulto, guiado por arranjos musicais mais bem cuidados e que apontavam para uma sonoridade folclórica mesclada à melancolia. A maturidade do novo estilo era reforçada pela regravação de músicas de novos artistas, que inspiravam a nova moda dos anos 1970. Lady d'Arbanville foi traduzida da rock-pop-folk homônima lançada pelo britânico Cat Stevens naquele mesmo ano. Ao mesmo tempo que inovava, Dalida mostrava que suas origens continuavam vivas, reafirmando sua forte ligação com a Itália. Ela pegou a canção La Prima Cosa Bella, defendida por Nicola di Bari no Festival de San Remo de 1970, e regravou-a como Si C'était à Refaire.


Dalida seguia cantando hits italianos em francês, como Si C'était à Refaire


Ambos os processos - de demonstrar versatilidade em novas criações e reafirmar parâmetros antigos - foram sendo trabalhados nos singles seguintes, Darla Dirladada e Ils Ont Changé Ma Chason, Ma. A primeira música tratava-se de uma canção folclórica originária da ilha de Kalimnos, na Grécia. O texto dela foi traduzido em francês por Boris Bergman - grande letrista que elaborou grandes textos para Dalida, como Le Septième Jour (1968), Lacrime e Pioggia (1969) e Le Fermier (1971). A cantora chegou a gravá-la também em italiano e a apresentou no Festival Canzoníssima de 1970. A canção fez um grande sucesso e foi certificada com o prêmio de disco de ouro. Já Ils Ont Changé Ma Chanson é um sucesso americano, composto e lançado em 1970 por Melanie Safka. De forma divertida, a canção brinca com um hábito musical costumeiro da época: a elaboração de versões de músicas americanas pelos franceses (ainda que os americanos também tenham traduzido muitos originais em francês para o inglês). De forma irônica e engraçada, o texto chega a apresentar um dos refrões e uma estrofe traduzidos para o francês, em alusão a uma possível versão daquele título. Em resposta ao texto de Melanie, a música foi realmente versionada para o francês, especialmente para Dalida, e lançada naquele mesmo ano. A faixa foi destaque entre os singles do ano e fez sucesso também em francês.

Ils Ont Changé Ma Chanson, Ma: outro grande sucesso,
 que deu nome ao LP lançado naquele ano



Todas essas canções e os b-sides dos dois últimos singles - Diable du Temps e Ram Dam Dam (La Vie Bat le Tambour) - integravam o novo LP de Dalida, intitulado pelo single de destaque, Ils Ont Changé Ma Chanson. Na capa, a cantora aparece vestida em uma roupa também bem folclórica, mostrando que sua mudança na música também se refletia na moda. Desde 1969, Dalida vinha substituindo as botas e saias sessentistas por longos vestidos e batas indianas, vestimentas mais compostas. A mudança também era inspirada pelo fato de que a artista, então com 37 anos, já chegava na casa dos quarenta e optava por um visual mais senhorial. O referido álbum, que possui uma linha de produção bem marcante, foi bastante aclamado pela crítica da época, apesar do sucesso comercial ter sido menor - apenas um disco de ouro registrado.

Em 1970, Dalida fez sucesso com Darla Dirladada, 
transformando a canção folclórica grega em hit

Apesar de ter obtido sucesso comercial, os novos trabalhos de Dalida não estavam voltados para esse propósito. No LP de 1970, apenas Darla Dirladada e Ils Ont Changé Ma Chanson, Ma, que se tornaram singles, eram canções mais comerciais. Toda a linearidade do disco tinha um quê de alternatividade, que inseria Dalida em um patamar de produção musical mais refinado e fora do eixo da moda. Canções como Pour qui, Pour Quoi e Mon Frère le Soleil demonstram esse novo lado da cantora, atraem olhares curiosos sobre o novo estilo, apesar de não serem grandes hits comerciais.

Pour qui, Pourqui: Através de um novo estilo musical, 
Dalida demonstra maturidade artística e pessoal


Dalida emplaca outra composição grega em 1970: Mon Frère le Soleil, de Mikis Theodorakis,
 mesmo compositor do sirtake de Zorba, o Grego. A canção foi trabalhada apenas em 1977,
quando figurou novamente outro LP de Dalida, Salma Ya Salama.

No primeiro disco da coletânea Les Années Orlando, intitulado La Rose Qui J'Aimais, constam todas as canções do LP de 1970 e os b-sides não incluídos no álbum. Além disso, marcam presença no CD canções lançadas no disco Une Vie, de 1971. Este último continua o trabalho feito por Dalida no ano anterior, sendo que de forma mais intensificada. As composições apresentadas no LP mostram temas ainda mais denso, com temas mais aprofundados. É o caso de Comment Faire Pour Oublier, Tout au Plus, Mamy Blue (interpretada em italiano) e Avec le Temps - esta última, composição célebre de Léo Ferré. Além dessas, o disco La Rose Qui J'Aimais traz a versão de Dalida de uma canção polêmica de Lucio Dalla, adaptada como Jésus Bambino. Para conhecer as demais canções do álbum Une Vie e a gênese do trabalho, consulte a postagem homônima do disco.




1. La Rose Qui J'Aimais
2. Ils Ont Changé ma Chanson, Ma (Look What They've Done to My Song, Ma)
3. Lady d'Arbanville 
4. Comment Faire Pour Oublier (Stop! I Don't Wanna Hear it Anymore)
5. Avec le Temps
6. Si C'était à Refaire (La Prima Cosa Bella)
7. Jésus Bambino (4 Marzo 1943/Gesù Bambino)
8. Darla Dirladada
9. Pour Qui, Pour Quoi
10. Mamy Blue
11. Tout au Plus (Tutt'al Più)
12. Mon Frère le Soleil
13. Entre les Lignes, Entre les Mots
14. Les Jardins de Marmara
15. Une Jeunesse
16. Diable du Temps (Old Devil Time)
17. Ram Dam Dam (La Vie Bat le Tambour)